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23.9.09

boa noite, paulo.

_ Boa noite pessoal. É isso.
Os alunos se levantam e saem da sala.
"Eu devia ter dito alguma coisa sobre Manuel Bandeira. Eles sempre gostam de ouvir sobre o porquinho da índia".
Paulo destrava seu carro, estacionado na frente da lanchonete da Dona Cleide. Trânsito. Alfa FM... ah, que delícia ouvir Alfa FM.
Chega em seu prédio, elevador, apartamento. Acende as luzes da sala. Olha ao redor.
Tudo está no lugar. Os muitos livros catalogados por sobrenome do autor nas diversas estantes vizinhas, o peso de papel - lembrança de Bonito-MS -, o porta-retrato com a foto dela... tudo está no lugar.
Ele deixa as chaves em cima da mesinha de canto, tira o paletó e coloca sobre a cadeira, senta no sofá e liga a tv. Nada a se ver.
Desliga a tv, pega um livro na estante. "O velho e bom Dostoievski". Lê umas vinte páginas, pisca mais demoradamente umas duas vezes e não pensa duas vezes: hora de dormir.
Mais um dia acaba para Paulo, que acerta o despertador para às seis da manhã, coloca o pijama e diz boa noite a si mesmo. "Boa noite, Paulo".

16.9.09

é assim que imagino vocês dois. (ou imagino nós dois, se você fosse meu).

Ele a espera para o jantar.
Ela chega às nove, como todo dia o faz.
Ele bota uma música do tim maia pra tocar.
Ela esquenta a barriga no fogão.
Ele chega por trás e dá um beijo em sua nuca.
Ela se arrepia toda e capricha no arroz.
Ele dança arrastando os pés no chão da cozinha.
Ela ri alto e se vira para dançar.
Ele esquece que o salário não cobre as contas.
Ela esquece do trânsito.
Eles dançam.
O arroz queima.
Eles não se importam.

3.9.09

jogados.

Desde quando sabe?
Bicicleta molhada e pato de borracha combinam bem com conhaque e abacaxi.
Comida indiana você encontra na padaria.
Cabelo jogado de lado.
Saia de casa menina, saia, vá ver o sol.
Quer saber quantos anos eu tenho? Olhe para minhas rugas. Quantos você me dá?
Nunca subestime uma tartaruga.
Pedrinha amarela de aquário. Pedrinha azul, pedrinha roxa, pedrinha suja e sem cor.
Deixa isso aí! Vem pra cá logo.
Vai perder a sessão.
Mas moço, eu não tenho pé.
Então volte para casa de butantã-usp.

4.8.09

prazeres Dalila.

Dalila gosta de:

Cantar desafinada e de propósito.
Andar descalça na grama úmida.
Ver como as bolinhas de gude parecem esconder um universo dentro delas.
Guarda-chuvinhas de chocolate.
Ver casais se beijarem na rua e sentir nojo.
O cheiro do cabelo de sua mãe.
Falar uma palavra diversas vezes até ela perder o significado.

Dalila não gosta de:

Fanta Uva.
Quando olham torto para ela na rua.
Novela.
Zumbido de mosquito.
Dançar de barriga cheia.
Acordar tarde.
Sentir que o resto do mundo não acha dela grande coisa.

27.7.09

a grande vingança.

Cinco da tarde. Escritório central do FBI.

"Interceptamos uma ligação entre nosso suspeito e os possíveis compradores da arma" disse Smith. "Temos duas horas. Sanderson e Mcmillan. Quero que cerquem a ala leste do edifício. O'Brian e Chapman. Vocês dois aguardarão no acesso norte. Christopher, você dá cobertura para O'Brian e Chapman. Ao meu sinal, quero que avancem."

O olhar de Smith parecia concentrado em um ponto da parede no final da sala.

"Vocês precisam ter o máximo de cuidado" continuou Smith. "Um grama desta arma é capaz de transformar a Times Square em poeira. Não sabemos ao certo qual o grau de loucura do Dr. Heinz, portanto não sabemos do que ele será capaz de fazer quando nos vir. Precisamos ser rápidos e cirúrgicos. Entendido?"

"Capitão?" Renzi levantou a mão.

"Sim, agente Renzi?"

"Com todo respeito, mas o mundo estará a um fio de ser destruído naquele edifício e eu ficarei aqui, sentada, esperando tudo acabar?"

"Agente Renzi, nós sabemos muito bem que você não é apta para o serviço. Fique aqui e analise essa pilha de documentos do imposto de renda."

"Mas capitão Smith, eu sou tão competente quanto qualquer um dos outros agentes desta companhia. Eu descobri a fórmula X e acredito que sou tão ou mais apta que meus colegas para lidar com esta arma."

"Descobrir a fórmula X foi mero acaso. Agora volte para a sua sala e prepare uns muffins para nossos companheiros. O meu de blueberry, por favor."

"Senhor! Eu não aceitarei tal tratamento! Eu estou nesta companhia há 23 anos, dedico minha vida ao FBI e até hoje ninguém me deu a chance de sair a campo e enfrentar um inimigo de verdade! Estou farta de ser esquecida, subjulgada e desprezada!"

Neste momento, Renzi começou a se curvar furiosamente e todos seus companheiros se assustaram com o que veio depois. A agente havia se transformado em um grande monstro de muffin de blueberry e começou a urrar palavras de ódio.

"VENHA CAPITÃO, AQUI ESTÁ SEU MUFFIN! GRRRRRAAAAAAAUUUU".

E assim a agente Renzi exterminou seus companheiros de trabalho e foi contratada pela produtora japonesa YHDG, onde hoje faz sucesso com a criançada em um canal da televisão local.

21.7.09

dilema.

"é fácil. pule, eu te seguro."
"não, não."
"eu te seguro, confie em mim."
"eu tenho medo de cair. tenho medo que seus braços não aguentem o peso do meu corpo, ou que você se esquive no momento da queda."
"eu já disse que nada disso vai acontecer. eu nunca te deixaria cair."
"mas..."
"o quê?"
"por que descer? eu gosto daqui. a vista é muito bonita."
"porque você mesmo disse que não gosta daí de cima. venha, eu te seguro."
"mas se eu descer, nunca mais poderei ver este lado da vila."
"você não pode ter os dois. mas se você acha que observar daí de cima o lado em que estou é o mesmo que viver aqui, eu digo que está enganado."
"e se eu quiser voltar?"
"você volta. não é uma viagem apenas de ida. você volta se quiser."
"você ficaria triste?"
"sim, mas eu ficaria mais triste se você nunca descer, porque daí eu nunca terei a chance de te fazer feliz aqui embaixo. e você nunca saberá se teria sido mais feliz aqui."

6.7.09

back.

Na minha família, todos os primos eram mais velhos. Quando eu tinha 6, eles tinham 15. Daí quando todos se reuniam para conversar sobre o novo disco do Biquini Cavadão ou das novas camisetas da Hering que brilhavam no escuro, eu ficava meio de canto, tentando entender alguma coisa.
Mas eu tinha um primo da minha idade, o Leandro. No Natal, era pura diversão. Um parente sempre se vestia de Papai Noel e, meia noite, ele descia as escadas da casa da minha avó paterna tocando um sininho. Depois, sentava na sala e tirava vários presentes do saco, a maioria endereçados aos caçulas, o Leandro e eu.
A gente acreditava e tudo. Até que um dia, eu vi meu tio subindo as escadas para se trocar e corri pro Leandro: "O Papai Noel é o tio Ciro!". Mesmo assim, curtíamos a brincadeira, até porque era óbvio que o verdadeiro Papai Noel existia. Tanto que outro passatempo era ficar no jardim olhando pro céu e buscando o trenó dele.

Ontem eu encontrei o Leandro na festa junina da família do meu pai. A gente pouco se vê, então foi como voltar uns 15 anos no tempo. Ele citou quando descobrimos a verdade por trás do Papai Noel, mas não lembrava de ficar procurando o trenó no céu. "Nossa, você ativou uma parte da minha memória que eu não usava há muito tempo!", disse. "É, estamos velhos" complementei.

Entre tantos problemas adultos, disputas, depressão, brigas e rancor que rodeiam minha visão de família e de terra natal, esta conversa com meu primo foi um momento mágico, em que eu não tinha mais 23 anos, mas 6, e eu acabara de descobrir que o Papai Noel que descia as escadas era meu tio e então corria para o jardim da casa da minha vó olhar o céu. De repente, tudo a minha volta era quente e colorido, a Xuxa cantava na tevê e meus primos conversavam sobre New Kids on the Block. Minha mãe abraçava meu pai e dava bronca nos meus irmãos por estarem comendo antes da hora. Minha avó passava por mim e sorria carinhosamente, perguntando se eu estava ansiosa. E eu rodava minha saia de lambada, animada pelas próximas horas.
Era Natal, e quem se preocupava com o futuro? Nós estávamos imersos para sempre naquela redoma de felicidade e ninguém ousaria pensar que algo um dia seria diferente.

29.6.09

.

O farfalhar das folhas secas.
O sol que tenta atravessar a copa das árvores.
Um graveto fora do lugar.
Ela cai.
Tenta espanar a terra da saia com a mão. Um pouco fica.
Ele está a poucos metros dali, sentado na beira de um lago.
"Eu caí." diz ela "Estou suja."
"Eu estou sentado na lama."
Risos.
Pausa.
"É certo?" ela pergunta.
"Sim. Desculpe-me"
"Mas não tem como adiar, mudar, sei lá, cancelar este casamento?"
"Não. Não há."
"Como não?! Deve haver um jeito!"
Ele não responde.
"Você não quer."
"Não entendi." Ele diz.
"Você. É você que não quer adiar o casamento!"
"Olhe só, você sabe o quanto eu gosto de Augustine, não seria justo para ela."
"Mas o que importa é você! Nós!"
"Não é bem assim. Nós, eu e Augustine, temos uma história juntos."
"E nós não? Só porque nossa história é mais recente, não quer dizer que não tenhamos uma."
"Diana, isto é muito complicado para mim. Augustine e eu nos damos muito bem."
Ela se afastou.
Ele se curvou.
"Diana. Desculpe-me."
"Tudo bem."
Silêncio.

26.5.09

Dalila #4

Para Dalila, a leitura de mão não era um dom. Era um sustento. Todas as mulheres de seu povo praticavam esta arte, que teve início em tempos esquecidos, quando, rejeitados pela sociedade e taxados como místicos, os ciganos começaram a tirar proveito da aura mágica que os cercava e difundiram a adivinhação como especialidade da casa.

Não era tão difícil. Era tudo uma questão de decorar quais linhas significam o quê e dizer palavras que agradem. A pessoa tem uma linha do coração comprida e bem marcada, mas a da vida fraca e apagada? Oh, você terá um grande amor em breve. É tudo uma questão de perspectiva. Ninguém que lê a própria sorte espera receber más notícias.

A mãe de Dalila sempre dizia que antigamente era mais fácil conseguir clientes. Hoje em dia, as pessoas passam apressadas, não confiam em ninguém e muito menos acreditam em papo de vidente. Aliás, a falta de clientela os obriga a fazer o que deles é esperado: migrar de cidade em cidade, sem criar raízes por onde passam e sem deixar rastros de sua existência.

Aquele era um típico dia de verão. Dalila estava longe de seu trailer quando começou a trovejar. Com os primeiros pingos de chuva tocando o solo quente, a garota fugiu para debaixo do toldo de uma loja fechada. Entediada, começou a cantarolar uma melodia inventada e a brincar com seus chinelos. Dez minutos de chuva torrencial e apareceu um homem engravatado, com uma pasta em cima da cabeça, correndo para se refugiar onde Dalila estava. Ele sacudiu o paletó, passou a mão por cima do couro da pasta e verificou as horas em seu relógio. Quando se deu conta da presença da menina, limitou-se a esboçar um meio-sorriso sem graça e a dizer: “que chuva, hein?”. A menina não respondeu. Cinco minutos depois e, sem sinal de melhora no tempo, Dalila disse: “moço, quer que eu leia a sua sorte?”. O rapaz, distraído até então, deu um pulo e perguntou: “oi?”. Ela repetiu a proposta e ele disse: “hum, ok, pode ser”. “É um real”, alertou a menina. Ele concordou e Dalila pediu para que ele estendesse a mão esquerda. O rapaz assim o fez. Pavor. Dalila percebeu horrorizada que o homem não tinha linhas na palma da mão. “Deixa eu ver a outra, moço”. Nada. Nenhuma linha. “Moço, você não tem linhas nas mãos”. “Não? E agora, isso é bom ou ruim?”. “Não sei!”. Silêncio. O rapaz examinou as palmas das mãos e, perplexo, questionou o que havia de errado com ele. A menina olhava assustada para a chuva. “Quê que eu tenho de errado?” perguntou o rapaz. Silêncio. “Moço,” disse ela finalmente “acho que você não tem linhas porque o seu destino não tá escrito”. “Isso é mau?” perguntou ele. “Não. Acho que na verdade, moço, acho que na verdade você tá livre. Não pergunta porquê. Eu não sei. Mas acho que você tá livre”.

A chuva começou a cessar. O homem, sem dizer nada, deu um real para Dalila, que agradeceu. Ele partiu, dez quilos mais pesado do que antes, mas mais leve do que uma pena para o resto da vida. Dalila tentou explicar mais tarde para sua família o que aconteceu na rua. Ninguém acreditou. Depois de um tempo, nem ela mais sabia se tinha vivido aquilo ou não, ou se ela estava precisando de óculos. “Um homem sem destino,” pensava ela “não há sorte maior que essa”.

23.5.09

charming.

De repente, o príncipe encantado cai de seu cavalo branco, se levanta e vai amarrar os cadarços do tênis da princesa.
A princesa admirada pergunta se a dor da queda foi suportável.
Suportável, ele diz, porém dor. Dor, ele diz, porém necessária.
Agora que sua dor se transformou, diz ela, vamos dar uma volta?
Sim, diz ele, mas espero que você não pense que sou um príncipe deselegante ou desequilibrado.
Não pensarei, diz ela. Contanto que você não desista da nossa volta.

21.5.09

delirium.

Uma girafa chega no balcão do hospital e pede.

“Tio, me vê dez reais em bala de iogurte?”

O macaco gira lentamente o baleiro.

“Dez reais, menino? Vou ter que abrir um pacote. Você não quer um pacote fechado?”

A girafa hesita.

“Na verdade, percebemos, cada vez mais, que o entendimento das metas propostas facilita a criação das posturas dos órgãos dirigentes com relação às suas atribuições. Não obstante, a expansão dos mercados mundiais aponta para a melhoria das novas proposições.”

O macaco acena com a cabeça.

“Mas sabe uma coisa que eu nunca entendi? Pra que serve aquele lápis de cor branco?”

“Eu gosto de tinta guache”, responde a girafa.

17.5.09

diva.

Carine Corelli é a rainha dos palcos. Com sessenta anos de carreira, já atuou em quase todos os clássicos do teatro mundial. Sempre adorada, flores enfeitam seu camarim. Críticos a consideram a lenda viva do drama, isso porque ficou famosa ao interpretar personagens sofridas, muitas vezes tão carregadas de sentimento que o público chorava copiosamente, seja face à pobre mãe que perdera seu filho na guerra, seja face à triste amante enganada pelo vil namorado.
Frágeis mãos pincelam levemente a bochecha cândida e enrugada e, com carinho, pintam seus lábios de vermelho cereja. Mãos que completam setenta e cinco anos esta noite, e que receberão grande festa depois que o espetáculo terminar.
Desta vez, Carine será ela mesma no palco. O texto sobre sua vida, escrito por seu melhor amigo e diretor, Henri, é aguardado por todos os que lotam a casa. A imprensa está em peso na estreia, assim como gente famosa, amigos e fãs da atriz. Eles se perguntam o que será revelado naquelas linhas, e, principalmente, se seus corações estarão prontos para o que há por vir.
Soa o terceiro sinal. Silêncio.
Corelli entra em cena. É ovacionada. O monólogo começa. Vinte minutos depois, nada de muito excepcional ou chocante. A atriz representa momentos de sua infância pobre no subúrbio de Paris, seu primeiro namorado, seus desejos e anseios. Ouve-se um bocejo no fundo da plateia. Envergonhados, muitos espectadores baixam suas cabeças ou olham repreensivos em busca do grande atrevido.
Final do último ato, a atriz declara: estou morrendo. Em seguida, leva a mão esquerda ao peito e exprime uma feição de dor. A plateia emudece. Finalmente, o grande momento da rainha. Ninguém ousa piscar ou desviar os olhos do palco. Corine cai de joelhos no tablado. O som da queda acentua a emoção. Ainda com a mão no peito, a atriz repete: estou morrendo. Um grito seco foge de sua boca e atravessa todas as almas ali presentes. Carine cai completamente na madeira dura e empoeirada. Ouvem-se soluços. Um segundo depois, irrompe uma salva esmagadora de aplausos e todos se levantam. Bravo! Bravo! Flores são arremessadas ao palco. Por cinco minutos, há êxtase geral. Dez minutos se passam e Carine não se levantou ainda. Nem mesmo se moveu.
O autor então aparece correndo e manda fechar as cortinas. Ele não diz nada, mas sabe que há algo errado. Não era aquele o final que escrevera para a peça. Pede para todos se afastarem e fica muito nervoso ao ver que a cortina ainda está aberta.
Ele toca delidadamente a face de Carine, rígida e fria. Lágrimas escorrem de seu rosto e mancham o blush da rainha dos palcos, morta.
Ninguém ousa pronunciar uma palavra. E, mesmo nos jornais, mesmo na tevê ou na internet, ninguém fala da morte de Carine. É como se o mundo todo tivesse parado o tempo e prendido a respiração, ainda esperando ansiosamente que a majestosa dama se levante do tablado e, gloriosa, termine seu último e mais ousado ato.

12.5.09

le mariage.

As flores estão atrasadas.
O chefe do buffet olha no relógio a cada dois minutos.
Uma rajada de vento faz o toldo levantar levemente.
Ouvem-se risadas ao fundo.
As flores chegam.
Lírios, rosas, tulipas.
Quem é responsável pelo gelo? O gelo chegou! Edna!
Prato, talheres, guardanapo, prato, talheres, guardanapo, prato, talheres...
...
As mãos dele estão suando.
Nos bancos a sua frente, olhos felizes a observar.
Reconhece sua tia, sua avó dá um tchauzinho debaixo de um chapéu old-fashioned azul turquesa.
Há um alvoroço logo ali, e a marcha começa a tocar.
As penas da noiva estão lindas.
O bico refinadamente decorado.
É a pata mais fantástica que já vira na vida.
O rabinho do noivo balança de alegria.
Tem vontade de uivar, de pular na relva e correr atrás de carros.
...
Sim.
Sim.
A noiva quase chora com o geladinho do nariz dele roçando em seus olhinhos fechados.

8.5.09

Dalila #3

Ele era alto, magro, cabelos castanhos. Cachos.
Morava numa casa amarela, com um portão cinza e janelinhas brancas.
Tinha um cachorro marrom.
Gostava de roupas bonitas, calça jeans e camisa pólo.
Andava de um jeito engraçado.
Ele era bem bonito.
Dalila não sabia seu nome. Pouco sabia do rapaz que observava todas as manhãs, saindo de casa atrasado, perdido em meio a seus próprios pensamentos.
Ela se sentava do outro lado da rua, seu vestido um pouco mais alinhado que de costume, até tentava pentear o cabelo com as mãos quando ele passava.
E ele só passava. E ela só olhava.
E ele era um rapaz diferente. Dalila não sabia por que se sentia tão atraída.
Um dia ela resolveu atravessar a rua.
Como sempre, ele apareceu apressado, fez carinho no cachorro, procurou no molho de chaves a correta e fechou o portão.
Dalila, num impulso, resolveu arriscar. Aproximou-se do rapaz e disse olá.
Ele virou o rosto para a menina e disse: Desculpa, não tenho nada.
Ele foi embora. Ela chorou.

22.4.09

Dalila #2

Com quatro reais em moedas menores na mão, Dalila sentia o estômago roncar. Cinco horas da tarde de um domingo sem graça. Entrou num boteco qualquer e passou com a mão esquerda estendida por meia dúzia de homens sujos e feios, que assistiam hipnoticamente a um jogo de futebol na tevê. Ignorada por todos, saiu praguejando baixinho qualquer coisa pela rua, até ser abordada por um taxista, que observava tudo de fora de seu carro estacionado.
"É final de campeonato, sabe? Eles não vão te ouvir."
"É."
"Mas o que você quer? Comida?"
"Hu-hum"
"Toma, não gosto de atum. Minha mulher insiste em fazer de atum, ela sabe que eu não gosto."
Dalila aceitou o sanduíche. O gosto era estranho, parecia estragado, mas ela não podia reclamar.
"Agora vem aqui garota, deixa eu ver essa sua tatuagem."
Ela fingiu não ouvir.
"Vem aqui, sua malagradecida."
Dalila levantou seus olhos para o taxista, que a encarava como um animal encara sua presa. A menina guardou lentamente o sanduíche dentro de uma pequena bolsa improvisada com panos e deu sinal ao primeiro ônibus que passou. Ao subir os degraus, ainda pôde ouvir os xingamentos feios e confusos do homem deixado para trás.
Já no ônibus, Dalila sentou-se nos degraus que acabara de subir, encolhida, braços envolvendo as pernas. E, apoiando o queixo nos joelhos, ela fixou seu olhar no horizonte, ora observando o lusco-fusco que deixava os carros borrados, ora encarando seu próprio rosto, magro e vazio.

19.4.09

Dalila

As belas e esquecidas fachadas dos edifícios olham para a cidade que um dia lhes admirou. Hoje, são apenas suas grandes janelas, seus ricos detalhes encardidos e suas paredes que observam pacientemente toda a confusão de pessoas que por suas ruas passam. Numa esquina, um grupo de africanos briga verbalmente; na outra, uma reunião de gente rica, comemorando o feriado num bar chique. Não muito longe dali está Dalila. Quatorze anos, uma rosa tatuada na batata da perna esquerda, piercing no nariz e três dentes de ouro. Ao seu lado, sua irmã, onze anos, piercing na sobrancelha direita e sua prima, vinte anos. Dalila gosta de andar como se estivesse em câmera lenta. Gosta de sentir seu corpo todo reberverar a cada passo descalço que dá. Na face, toda a história de sua geração. Ela faz parte de um povo há muito esquecido e por sempre negligenciado. Dalila é uma jovem cigana. Ela odeia quando a associam com cartomantes ou feiticeiras errantes, mas sabe que é preciso assumir o papel, quando pode disso tirar algum proveito. Desde os dois pede dinheiro na rua. Hoje, esta prática é sazonal. Prefere viver do que é de graça, ou melhor, do que pode assim conseguir. (continua)

8.4.09

15 minutos.

tenho que trabalhar 15 minutos a mais todos os dias.
mas 15 minutos são como sexta-feita.
15 minutos em que o cérebro desliga.
a gente só pensa nas 17:15 e o que vem depois.
só penso na quinta.
só penso no coelho da páscoa.
adorava a páscoa.
maior encenação.
eu jurava que ele existia.
e me trazia ovos na calada da noite.
hoje meu coelho está drogado e prostituído.
quem me entrega seus ovos é o supermercado.
em sacolas feias.
mas eu gosto deles mesmo assim.
mulheres não recusam chocolate.
17:15 in my mind.
quero esticar as pernas.
e fazer o jantar.
e ouvir o noticiário.
e ir ao cinema.
e cantar no chuveiro.
quase todos os pianistas do mundo não são melhores que o de ontem.
mas todas as ilusões não são menores do que as de ontem.
e são 15 min.
e já foram.