7.2.10

"Oi pai, tudo bem?"
"Tudo, eu que pergunto, não ligou a semana toda"
"Não? Sério?"
"Sério"
"Não percebi, o tempo passou muito rápido"

16.1.10

tomorrow is just an illusion we believe

Já me acostumei a dizer adeus.
Disse tantas vezes, para você e para mim mesma.
Já me convenci de que não pode acontecer.
Mas nunca consegui te convencer de que pode dar certo.
Vou conseguir superar.
Eu já chorei por tantos outros. Até mais do que agora.
Com o tempo, a gente sofre mais intensamente mas por menos tempo.
É um caminho conhecido. É um desperdício.
É bom se agarrar a algo maior.
A um futuro deslumbrante.
À ideia de que tudo será melhor. Diferente, pelo menos.
Onde não existam laços.
Onde só exista eu.
Confortável comigo mesma.
Sozinha. Feliz.

25.12.09

Então é Natal.

Eu sempre gostei de Natal. Era meu feriado favorito. Só de pensar nas músicas, nos enfeites, na comida e nos presentes meu coração se enchia de alegria. Mas também era porque junto com tudo isso eu tinha uma grande comemoração... A ceia com minha família, a troca de presentes, os abraços à meia noite. Mesmo nos últimos anos, quando a gente não ia mais na casa da minha avó paterna (ela falecera), mesmo assim era legal. Sabe, a gente tentava, não importava se era só nós cinco, a gente tentava manter os ânimos e fazer uma data significativa.
Mas agora... agora ninguém faz questão de manter a família unida. Uma porque minha mãe acha que meu pai a abandonou, portanto não é família. Daí minha avó tá com ela e não abre. Meus tios maternos também. Minha ceia foi uma tentativa, um esboço, foi uma fagulha de esperança de um Natal feliz. Mas a cada segundo, eu sabia da verdade, sabia que aquilo não era o Natal que eu amava, eu não sentia nada ao ouvir as músicas, ao ver os enfeites, ao cheirar a comida ou ao receber presentes. Não adiantava, nem se o próprio Papai Noel entrasse na festa e chacoalhasse minha cabeça... nem assim. Para mim, quanto mais cedo acabasse, melhor.
É difícil para ela, é. Mas infelizmente, para mim, a última centelha do Natal reside não na família, mas na tentativa do meu pai em manter a tradição. Eu me sinto uma adolescente revoltada, mas a minha vontade era dormir no dia 23 e acordar só no dia 2 de janeiro. É parte do amadurecimento, dizem. Nenhuma família é perfeita, dizem.
Eu ainda sonho com o Natal dos meus filhos, em que serei eu a responsável pelo clima da festa. Eu não quero descontar neles minha frustração da data, pelo contrário, quero fazer com que tudo seja perfeito, mesmo quando nada favorece a magia.

Essa música não sai da minha cabeça, acho que ela resume o que estou sentindo:



Comes the morning
When I can feel
That there's nothing left to be concealed
Moving on a scene surreal
No, my heart will never
Will never be far from here

Sure as I am breathing
Sure as I'm sad
I'll keep this wisdom in my flesh
I leave here believing more than I had
And there's a reason I'll be
A reason I'll be back

As I walk
The Hemisphere
Got my wish
To up and disappear

I been wounded
I been healed
Now for landing I been
Landing I been cleared

Sure as I'm leaving
Sure as I'm sad
I'll keep this wisdom
In my flesh

I leave here believing
More than I had
This Love has got
No Ceiling

17.12.09

o não óbvio

Uma coisa precisa ser dita. Quando estou com você, estou com você. Quando estou sozinha, eu estou sozinha.

12.11.09

how can you stay outside? there's a beautiful mess inside.



Sabe aquela pessoa que ilumina o ambiente com apenas um sorriso? Não é fácil achar pessoas assim, a gente pensa que conhece muitas, até que um dia descobre que poucas ocupam este lugar, de seres com luz própria ou, como diz a palavra: estrelas. Yael Naim é sem dúvida uma dessas pessoas, daquelas que a gente quer ser a melhor amiga, casar ou apenas que ela saiba seu nome. Essa cantora francesa, meio israelense, mas que canta em inglês, está na cidade e se apresentou hoje no Sesc Pinheiros. Eu conheci Yael Naim, como muitos, pela música da propaganda do MacBook Air (isso mesmo), mas hoje ela ocupa posição privilegiada no meu hall de cantoras favoritas. Isso porque ela transparece através de sua voz toda a emoção contida em suas palavras, além de ter um timbre único.

O auditório Paulo Autran tem lugares marcados e o meu era na esquina da segunda fileira. A primeira é meio que reservada (lugares vitalícios, talvez), e ninguém sentava ali. Quando Yael subiu ao palco, começou a cantar Far Far, que – e desculpem-me a pieguice – é uma música que foi feita para mim, sem brincadeira. Comecei a chorar imediatamente. Era como se aquele show fosse só meu, se ela estivesse começando tudo aquilo com a letra e melodia que compôs para me definir. Isso nunca aconteceu comigo, eu não estava preparada para aquela voz que foi muito além dos auto-falantes do meu notebook: Far Far inundava cada centímetro daquele lugar, e inundava cada milímetro de mim. Na segunda música, espiei a primeira fileira e notei que o assento bem na frente dela estava vazio. Como é proibido entrar depois que o espetáculo começa, eu sabia que ele continuaria vago até que alguém se esgueirasse até lá. E esse alguém fui eu. Mal pude acreditar. Era como se realmente aquele show fosse feito para mim e, mesmo sabendo da multidão que me seguia, era como se não existissem.

Yael Naim é uma fofa. Cabelos compridos meio sem pentear, um vestido roxo com ar medieval e pantufas de lã com cordões de bolinha. Ela dá pulinhos no ar ao se dirigir ao piano e, antes de começar sua versão (superior) de Toxic, de Britney Spears (sim), ela declara: “esta é uma canção de uma grande amiga minha, ela sempre vai lá em casa para jantar. (pausa) Era uma brincadeira, odeio que eu sempre preciso dizer que é uma brincadeira!”. Antes de New Soul, a música do MacBook, diz: “Esta canção eu escrevi porque antes de chegar em Paris eu achava que era uma alma antiga, vocês sabem, do espiritismo, que diz que as almas vêm e voltam à Terra várias vezes e uma alma antiga sempre volta mais bonita e inteligente. Bom, depois que eu cheguei em Paris, comecei a pensar que não, talvez eu seja uma alma nova afinal, e que esta é a minha primeira vez na Terra (risos)”. E New Soul fala disso, de ser uma pessoa que pode cometer sempre um erro novo, que sempre está aprendendo e que, pra ser sincera, resume a todos nós.

Os músicos que a acompanham são um caso à parte, têm presença de palco incrível e parecem estar em total harmonia entre si. Yael convida o público a interagir e brinca com os instrumentistas; esquece o que ia falar e pede aplausos para o carinha que veio arrumar o seu violão nos ombros; tenta conversar e tocar ao mesmo tempo; imita um guitar hero com um violão mínimo de madeira. Sim, você me diria, todos podem fazer isso, não é novidade. Mas Yael Naim tem toda uma delicadeza espalhafatosa que transforma cada tentativa de agradar em risos e admiração.

No final, no último bis, ela repete New Soul, desta vez com seus músicos lado a lado. Davi, o percursionista, "rouba" a câmera fotográfica de um rapaz da primeira fila e começa a filmar a platéia e os músicos - parecem que estão na sala de casa. Depois disso, uma multidão corre para a frente (pior pra mim) e começa a fotografar loucamente a cantora e sua banda. Eles não se intimidam e, pelo contrário, parecem estar se divertindo mais que todos. Por fim, Yael organiza um coral com o público, pede para que o lado esquerdo cante uma melodia, o centro outra e o direito outra. Depois pede para juntarem. Na última nota, não contente com a desafinação geral, pede: “Não, mais leve, mais bonito”. E assim fazemos. E, com o último acorde de New Soul, eles saem do palco, felizes como crianças. E, como crianças, rimos alto e aplaudimos mais uma vez essa cantora, ou melhor, essa estrela.

ps: assim que eu tiver o link do vídeo que eles fizeram no palco, posto aqui. Já falei com o dono da câmera, ele vai subir no Youtube.

9.11.09

Não me leve a sério. Mesmo, eu sou uma pirralha.
Eu sou uma pivete, uma criança, uma mimada.
Nunca passei necessidade, nunca soube o que é perder.
Eu sou uma piada sem sentido. Sou uma boneca de pano, você pode me arrastar por aí que eu não ligo.
Nuca fui rejeitada, não sei o que é a tristeza.
Sou a pessoa errada para o resto dos seus dias. Não queira envelhecer ao meu lado.
Sou uma bela pintura, uma bela monalisa emparedada.

(Conclusões extraídas de um ano para cá)

29.10.09

tragédias e comédias.

Às vezes eu falo do porquê do título desse blog. No começo, era porque eu fazia teatro e gostava de brincar com o ícone dessa arte. Ah, e tinha o outro motivo, e este permanece até hoje.
Se você parar um minuto, vai descobrir. Mas é o seguinte: as comédias e as tragédias não são a essência de nossa vida, mas digamos, são seus ápices opostos. A comédia é o ápice da felicidade, o rir desenfreado, o não se preocupar com nada além do que se vê. A tragédia, o ápice da loucura de nossas desgraças, aparece sem avisar e nos joga para baixo como uma batida de caminhão.
Sobrevivemos às comédias e, principalmente, sobrevivemos às tragédias. É isso que nos faz humanos, sempre aprendendo, sempre crescendo e toda aquela ladainha que a gente lê nos livros de auto-ajuda e nos powerpoints que nossos parentes nos enviam.
Mas é um saco. É um saco quando a gente vê que a tragédia está próxima. Se você for vidente já está acostumado, mas se não... é um saco. O pior é quando ela pode ser evitada, mas você não pode fazer nada a não ser esperar que aconteça. Momentos de bravura, como os do Mel Gibson ou do Bruce Willis, quando se jogam na frente da bala ou detonam o dispositivo explosivo em um asteróide... quem realmente se arrisca dessa forma? À estas pessoas construimos estátuas e nomeamos ruas, mas daí morremos todos e ninguém se lembra de quem foram nossos heróis, além dos pombos ou do Google.

Eu não sei por que comecei este post. Mas valeu pela reflexão.

19.10.09

O sol quente da manhã queimava de leve suas pálpebras adormecidas. Virou para o lado da cama e esfregou os olhos com a mão. Não precisava acordar cedo, era domingo. Mas não voltou a dormir. Dois minutos depois, estava se espreguiçando e em dois segundos, de pé. O pó dançava no feixe de luz que entrava pela janela. Seus pés preguiçosos seguiram até a cozinha. Abriu a geladeira e pegou o leite. Cheirou a abertura da caixinha e depois serviu um copo. Três colheres de chocolate e tomou tudo num gole só. Foi até a janela da sala e observou a cidade que lentamente tomava ritmo. Deitou no sofá e ligou a tevê. Alguma notícia? Não, não estava lá o que procurava. Como era inútil buscar notícias, desligou a tevê. Foi para o quarto e colocou uma roupa qualquer. Foi para a sala e depois para fora, e chamou o elevador. Desceu e saiu para a rua. Adorava domingos de manhã, a cidade ficava linda em sua solidão ensolarada. Sabia que não encontraria o que procurava na rua também, mas resolveu andar. Era gostoso ver os cachorros vadios a cheirar os postes, ou as crianças e os velhos que vão pra missa. Era bom ouvir o som da cidade sem tantas buzinas. Era bom atravessar a faixa de pedestres e cruzar olhares com estranhos. Ficava imaginando a vida deles, e o que os levava para a rua àquela hora. Queria conversar com eles, saber de suas histórias, mas preferiu imaginar. Gostava de criar roteiros alheios, achava que toda vida daria um livro. Nenhuma história é desprezível, pensava. Passou pela praça com a igreja e se perguntou se entraria para ver a missa. Melhor não e continuou. Os homens placa não estavam lá, eles deviam ter família também, não nasceram de placa nos ombros. Continuou andando, em direção ao rio. Os pombos e os cachorros e o lixo e os bêbados e os ratinhos e os esquecidos. Todos com uma cor linda devido ao sol da manhã. No chão, estavam caídos inúmeros ponteirinhos de relógio. Devem ter deixado cair, mas era engraçado pensar em tantos ponteiros sem utilidade, como se o tempo tivesse parado. E parecia parado mesmo. Neste momento, percebeu que era inútil continuar, ela não encontraria o que procurava nas margens do rio. Não estava em nenhum lugar palpável, ou virtual. E então virou-se e começou sua jornada de volta.

15.10.09

equívoco linguístico.

se a metonímia está certa,
se a parte pelo todo e o todo pela parte,
ela provavelmente esqueceu da parte que sem parte não é todo,
do todo que sem parte não é nada,
da parte que espera a parte que falta para ser todo,
do todo que é pálido sem a parte.

12.10.09

Se me dessem um papel e uma caneta e me pedissem para escrever o sentimento que define o agora, eu o deixaria em branco. Não há o que defina, não há o que se compare.
Não é necessariamente bom ou ruim. Não é excitante ou desestimulante.
É mais um estar suspenso, como uma bolha de sabão.
É como estar a vinte dias do Natal e não saber se o Papai Noel recebeu a cartinha. Melhor, é estar a vinte dias do Natal e não saber o que pedir. Não saber se você foi ou não uma boa menina, ou apenas escrever para o velho: "olha, veja aí nos seus registros, não sei se fui uma boa menina este ano, prefiro que o senhor mesmo resolva isso e traga o que for conveniente".
Mas também não é isso, não quero infligir meu destino nas mãos de outra pessoa, por mais tentadora que seja a sensação de irresponsabilidade.
Como disse, não sei. Qualquer pré-julgamento seria um equívoco. É um sentimento novo, sem precedentes e assustador na medida em que é inédito.
O que resta é o dia após dia. Quem sabe o não esperar seja o melhor caminho?

8.10.09

hoje não é o melhor dia.

hoje não é o melhor dia para comprar uma casa.
hoje não é o melhor dia para tirar fotos.
hoje não é o melhor dia para declarar seu amor.
hoje não é o melhor dia para estreiar uma roupa.
hoje não é o melhor dia para contar piadas.
hoje não é o melhor dia para terminar um namoro.
hoje não é o melhor dia para ir ao cinema.
hoje não é o melhor dia para começar uma dieta.
hoje não é o melhor dia para cortar o cabelo.
hoje não é o melhor dia para andar na rua.
hoje não é o melhor dia para fazer planos.

hoje é o dia do nada.
as pessoas deveriam se trancar em suas casas.
ninguém deveria fazer esforço.
nem esforçar-se em nada.
o governo deveria impor o trancafiamento.
e quem desobedecesse deveria ser alvejado por balas.
para que todos aprendam de uma vez por todas:

hoje não é o melhor dia para nada.

(later addendum: mas hoje vale para ler http://1000awesomethings.com/, debaixo das cobertas)

1.10.09

um ano.

há um ano atrás, havia o caio. estava tudo certo. estava tudo no lugar. eu fazia uma "despedida" no outback só pra reunir meus amigos. malas prontas. comigo, apenas a paz, o amor e a excitação por uma terra nova. eu tinha duas famílias completas. duas mães, dois (três) pais, três irmãos e muito mais. eu queria entrar no curso abril de jornalismo e ser uma fotógrafa da national geographic. estava tudo certo.

depois de um ano, não há o caio. na verdade, não há nada muito certo desde que houve o caio. há só a constante espera por algo realmente significativo, que justifique todos os nãos, todas baladas frustradas, todas as lágrimas, todas as páginas rabiscadas do meu diário e quem sabe, toda a minha vida. eu não fiz o curso abril. agora eu trabalho lá. malahide ainda é um sonho e blueberry muffin é apenas um doce do starbucks. mas há a paz, há o amor e a excitação. há o inebriante amanhã, onde nada é certo, apenas é certo este sentimento que transborda de meu peito, esse ser fiel comigo mesma, esse pulsar enlouquecido, essa espera apaixonante, esse querer agarrar o mundo com as mãos e nunca deixar de ser quem sou. eu não sei como será amanhã. só espero, esperançosa, para que seja o meu.

26.9.09

sem palavras.

as palavras cairam todas no chão.
não as encontro.
estou sem óculos.
onde estão as palavras?
eu preciso delas!
preciso para descrever isso tudo.
mas elas estão no chão.
deixe-as lá.
quem precisa de palavras,
quando se tem o impronunciável, o indiscritível?

23.9.09

boa noite, paulo.

_ Boa noite pessoal. É isso.
Os alunos se levantam e saem da sala.
"Eu devia ter dito alguma coisa sobre Manuel Bandeira. Eles sempre gostam de ouvir sobre o porquinho da índia".
Paulo destrava seu carro, estacionado na frente da lanchonete da Dona Cleide. Trânsito. Alfa FM... ah, que delícia ouvir Alfa FM.
Chega em seu prédio, elevador, apartamento. Acende as luzes da sala. Olha ao redor.
Tudo está no lugar. Os muitos livros catalogados por sobrenome do autor nas diversas estantes vizinhas, o peso de papel - lembrança de Bonito-MS -, o porta-retrato com a foto dela... tudo está no lugar.
Ele deixa as chaves em cima da mesinha de canto, tira o paletó e coloca sobre a cadeira, senta no sofá e liga a tv. Nada a se ver.
Desliga a tv, pega um livro na estante. "O velho e bom Dostoievski". Lê umas vinte páginas, pisca mais demoradamente umas duas vezes e não pensa duas vezes: hora de dormir.
Mais um dia acaba para Paulo, que acerta o despertador para às seis da manhã, coloca o pijama e diz boa noite a si mesmo. "Boa noite, Paulo".

20.9.09

mi confesión.

parece até uma afronta, você assim nos meus sonhos, pedindo perdão.
sua boca quente na minha roçando, seu corpo quente no meu se abraçando.
mas quando acordo, lembro-me do que fez. lembro-me do que não quero para mim.
esse você inflado, esse você irado, esse você louco por qualquer droga barata.
depois você me afronta, dessa vez publicamente, olhando diretamente para mim, no meu parque, com as pessoas que tanto amei quando as registrei.
você me olha e diz: veja aqui, sua anônima tentativa para mim resultou na capa do jornal.
mas essa afronta, parece que ela é apenas para mim.
saia de frente de mim, saia de meus sonhos, não quero sua boca quente, não quero suas drogas, não quero sua loucura.
queria você anônimo, queria você pequeno, queria você rendido, queria você só para mim.

mas saia.