25.4.09

*** fechada no mundo web para balanço ***

22.4.09

Dalila #2

Com quatro reais em moedas menores na mão, Dalila sentia o estômago roncar. Cinco horas da tarde de um domingo sem graça. Entrou num boteco qualquer e passou com a mão esquerda estendida por meia dúzia de homens sujos e feios, que assistiam hipnoticamente a um jogo de futebol na tevê. Ignorada por todos, saiu praguejando baixinho qualquer coisa pela rua, até ser abordada por um taxista, que observava tudo de fora de seu carro estacionado.
"É final de campeonato, sabe? Eles não vão te ouvir."
"É."
"Mas o que você quer? Comida?"
"Hu-hum"
"Toma, não gosto de atum. Minha mulher insiste em fazer de atum, ela sabe que eu não gosto."
Dalila aceitou o sanduíche. O gosto era estranho, parecia estragado, mas ela não podia reclamar.
"Agora vem aqui garota, deixa eu ver essa sua tatuagem."
Ela fingiu não ouvir.
"Vem aqui, sua malagradecida."
Dalila levantou seus olhos para o taxista, que a encarava como um animal encara sua presa. A menina guardou lentamente o sanduíche dentro de uma pequena bolsa improvisada com panos e deu sinal ao primeiro ônibus que passou. Ao subir os degraus, ainda pôde ouvir os xingamentos feios e confusos do homem deixado para trás.
Já no ônibus, Dalila sentou-se nos degraus que acabara de subir, encolhida, braços envolvendo as pernas. E, apoiando o queixo nos joelhos, ela fixou seu olhar no horizonte, ora observando o lusco-fusco que deixava os carros borrados, ora encarando seu próprio rosto, magro e vazio.

19.4.09

Dalila

As belas e esquecidas fachadas dos edifícios olham para a cidade que um dia lhes admirou. Hoje, são apenas suas grandes janelas, seus ricos detalhes encardidos e suas paredes que observam pacientemente toda a confusão de pessoas que por suas ruas passam. Numa esquina, um grupo de africanos briga verbalmente; na outra, uma reunião de gente rica, comemorando o feriado num bar chique. Não muito longe dali está Dalila. Quatorze anos, uma rosa tatuada na batata da perna esquerda, piercing no nariz e três dentes de ouro. Ao seu lado, sua irmã, onze anos, piercing na sobrancelha direita e sua prima, vinte anos. Dalila gosta de andar como se estivesse em câmera lenta. Gosta de sentir seu corpo todo reberverar a cada passo descalço que dá. Na face, toda a história de sua geração. Ela faz parte de um povo há muito esquecido e por sempre negligenciado. Dalila é uma jovem cigana. Ela odeia quando a associam com cartomantes ou feiticeiras errantes, mas sabe que é preciso assumir o papel, quando pode disso tirar algum proveito. Desde os dois pede dinheiro na rua. Hoje, esta prática é sazonal. Prefere viver do que é de graça, ou melhor, do que pode assim conseguir. (continua)

8.4.09

15 minutos.

tenho que trabalhar 15 minutos a mais todos os dias.
mas 15 minutos são como sexta-feita.
15 minutos em que o cérebro desliga.
a gente só pensa nas 17:15 e o que vem depois.
só penso na quinta.
só penso no coelho da páscoa.
adorava a páscoa.
maior encenação.
eu jurava que ele existia.
e me trazia ovos na calada da noite.
hoje meu coelho está drogado e prostituído.
quem me entrega seus ovos é o supermercado.
em sacolas feias.
mas eu gosto deles mesmo assim.
mulheres não recusam chocolate.
17:15 in my mind.
quero esticar as pernas.
e fazer o jantar.
e ouvir o noticiário.
e ir ao cinema.
e cantar no chuveiro.
quase todos os pianistas do mundo não são melhores que o de ontem.
mas todas as ilusões não são menores do que as de ontem.
e são 15 min.
e já foram.

6.4.09

bar.

Duas garrafas de Skol 500 ml, um maço de Carlton Dunhill, uma porção de batatas fritas, um suco de melancia, um suco de açaí.
E então, em meio a risadas e fumaça, ela me diz que ele já está em outra, há assim, há muito tempo. Não sei porque o envolvera em um manto de castidade por dois anos e que nunca pensara que ele podia se apaixonar denovo. Por que isto ficara tão fora de cogitação se era uma coisa tão óbvia? Só sei que depois da grande descoberta meu interesse pela conversa diminuiu a ponto de se tornar uma irritação pela minha ingenuidade.

3.4.09

derreto.

Hoje foi minha primeira noite fria na cidade.
Tão fria que congelou qualquer expectativa de diversão.